18 de agosto de 2015

Livro - Cidades do Novo Mundo - Fania Fridman (org.)

Localização: América do Sul
Capa do livro: Cidades do Novo Mundo, organização de Fania Friedman
Fania Fridman (org.). Cidades do Novo Mundo. Ensaios de urbanização e história.
Capa: Estúdio Garamond/Anderson  Leal
Sobre Mapa de Mexico (1628) de Gómez de Trasmonte. Museo de la Ciudad de México.

Introdução

A organização deste livro coloca em evidencia as razões da diferença entre a formação de cidades Europeias e as Latino-americanas. O facto é que as primeiras tiveram uma evolução natural como a evolução da sua cultura, uma evolução com tempo de amadurecer, poderemos colocar. No caso das segundas, existia já uma urbanidade local que foi obrigada a se adaptar, importando modelos como a quadrícula, proporcionando um espaço urbano de forma geométrica; Segregação residencial; e o conceito de periferia, revelando a dinâmica social imposta às cidade coloniais.
A América era idealizada pelo povo europeu como um paraíso terrestre e a implantação das cidades seguia modelos urbanísticos que iriam atender os vários grupos penetrantes no Novo Mundo, implantando assim, a Nova Lusitânia, a Nova Inglaterra, a França-América e a Nova Holanda. 

Temas Abordados: 

Importação de modelos urbanísticos europeus;
Segregação residencial;
Processo de periferização;
Ordenamento territorial imposto;
Formação das sociedades desde o período colonial;

Cidades e Povoados de índios (século XVI-XVII) 

– Historiador, Thomas Calvo

O foco deste texto são as cidades indígenas da Nova Espanha, século XVI e XVII. O autor recorda que de meados do século XVI a meados do século XVII desaparece 90% da população indígena por opressão hispânica e os sobreviventes foram dominados. Assim, surgem duas repúblicas – as cidades hispânicas e as cidades indígenas. Poucas foram as cidades genuínas que permaneceram. Os colonizadores utilizaram a quadricula no traçado regulador no novo tecido urbano e os indígenas segregados nos bairros periféricos.

Segregação residencial na cidade latino-americana no passado: resgate e discussão 

– Geógrafo, Roberto Lobato Corrêa.

A pesquisa de Lobato Corrêa correspondeu à análise dos padrões espaciais que estiveram na origem da segregação residencial e periferização das cidades Latino-americanas. Defende que o conceito de “plano de tabuleiro de xadrez”, com centro na Praça de Armas, veio a promover a segregação, a relação mais afastada (mais que o próprio conceito físico) entre centro e periferia. Coloca o marco do desenvolvimento industrial, meados do século XIX, como determinante para a evolução dos novos traçados urbanos. Refere as cidades de Buenos Aires, Bogotá, Lima, México, Rio de Janeiro, Santiago e Caracas e seus centros urbanos. Aborda a questão da especulação sobre a terra, a perspectiva do modo de vida entre classes altas e médias, como isso se traduziria na localização que fossem ocupar – paisagens cênicas, clima ameno, proximidade do mar ou montanha. Reforça a influencia da segregação na complexidade urbana das cidades latino-americanas.

Reflexões em torno da experiencia francesa da criação de cidades no Novo Mundo (século XVI-XVIII) 

– Historiador, Laurent Vidal.

Pesquisa sobre a colonização francesa e a sua influencia sobre a criação de cidades latino-americanas. Coloca bem a desproporção entre o investimento francês em 41 cidades, nesse recorte de tempo, comparado com o numero de cidades espanholas e português, 969 e 222 vilas respectivamente. Essa politica será descrita em detalhes com mapas da época. 

Reflexões sobre o urbanismo do século XIX 

– Historiador, Ramón Gutiérrez.

O século XIX viria para o território do Novo Mundo como tempo de ocupação plena do território, do processo de urbanização e o acoplamento ao sistema econômico mundial liderado por Inglaterra, colocando esta latitude como produtor de matérias primas e receptora de capitais e bens industriais. (Gutiérrez, 2013, Pág. 140)

Nessa visão de povoar e colocar a tecnologia da época a favor desse sistema, foi o momento de receber a migração de milhares de europeus para essa construção, com escala continental e sobretudo a partir de meados de oitocentos ao ritmo da revolução industrial. Havia se vislumbrado um um novo futuro, uma “nova ordem”, por isso parte das tarefas dos vários departamentos de topografia era precisamente retificar antigos traçados coloniais que por algum traço mais espontâneo precisaria ser adequados a um maior rigor geométrico. Havia então a convicção que a retícula ortogonal era melhor forma de controlar, dividir parcelar e repartir a terra e fundar as cidades. (Gutiérrez, 2013, Pág. 141) 

A “cidade” ou “colonia” torna-se um centro de serviços para a população rural, invertendo-se o principio da “cidade território”. (Gutiérrez, 2013, Pág. 142) 

O ritmo maior de vida que estava sendo colocado, o rigor que estava se impondo, ditava novas diretrizes para a concepção do traçado urbano. As praças serão maiores, as ruas mais largas e arborizadas. As articulações no território derivam do traçado das redes ferroviárias, da centralidade que a rede proporcionou de alguns núcleos urbanos de base industrial, o desenvolvimento de colonias agrícolas e o efeito da introdução das políticas de colonização privadas. (Gutiérrez, 2013, Pág. 143) 
Evidencia do conceito de higiene publica, que resulta em surgimento de espaços verdes, promoção da ventilação urbana e de serviços de saneamento e provisão de água segundo critérios científicos. (Gutiérrez, 2013, Pág. 146)

Surgimento do conceito de “eixo monumental” que articula praças e largos de diversos tamanhos e marca um processo que difere ou “descentraliza” o conceito de praça central. Colocação de equipamentos urbanos – mercados, escolas, igrejas, etc – em bairros demonstra como se tenta resolver as cidades cada vez mais complexas. A arborização das cidades articulou-se coma formação de novos “passeios” urbanos, o que acompanhava preceitos higienistas. (Gutiérrez, 2013, Pág. 148)

As cidades requeriam agora novos atributos, novos usos de seus espaços. Colocação de Relógios na prefeitura ou torres das igrejas. O abastecimento de água tinha agora que permitir pontos de tomada para carros aguadeiros e os largos tornaram-se centros distribuidores. Os matadouros e feiras de carne foram realocados para a periferia urbana e os mercados concentrados em recintos nos bairros por razões de asseio. (Gutiérrez, 2013, Pág. 151) 

O espaço público do passeio  era ordenado segundo normas precisas, seguindo critérios da paisagística geométrica francesa ou um “espontaneidade” inglesa, mas sempre acompanhado por equipamentos  como bancos, fontes, esculturas e monumentos, além de variados pavimentos, adornos florais, etc... (Gutiérrez, 2013, Pág. 156) 

Os processos de abertura comercial iniciados com os espanhóis em 1778 multiplicaram, pela dinâmica da política econômica inglesa, a acessibilidade aos produtos industrializados. A tecnologia permitia transportar edifícios de ferro desmontados, que podiam ser erguidos em qualquer lugar. Haveria escolas, igrejas, prédios municipais, estações ferroviárias, mercados e “casas contra sismos” que chegaram adquiridas por catálogo e localizadas na vasta e complexa realidade do continente. (Gutiérrez, 2013, Pág. 158) 

As construções da época, pelo tanto que se poderia projetar e a industria criar, começaram a ser concebidas para ser únicas e seus proprietários buscam desse modo se diferenciar dos outros e as cidades começam a ganhar prestigio por seus edifícios distintos. Surge a competição em detrimento da solidariedade. De um modo geral como aponta Juan Martin Burgos é interessante como ele observa que as cidades “produzidas” no continente Americano tentando responder ao retrato de uma sociedade “europeia” acabam por responder melhor a esse critério que as cidades “matriz” (Gutiérrez, 2013, Pág. 158)

Referências Bibliográficas: